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O segredo da cachaça de Salinas: tradição e tecnologia lado a lado

Na Capital Nacional da Cachaça, o diferencial da bebida nasce do encontro entre conhecimento transmitido por gerações e tecnologias que aprimoram o cultivo da cana, o controle da produção e a qualidade do produto final.

Qual é o segredo por trás da fama da cachaça produzida em Salinas?

A resposta não está em um único ingrediente, equipamento ou etapa da produção. Ela começa no território, passa pelo conhecimento acumulado durante gerações, pelo cultivo da cana-de-açúcar, pela fermentação, pelo cobre dos alambiques e pelas madeiras utilizadas no armazenamento e envelhecimento. E, cada vez mais, passa também pela tecnologia.

Em Salinas, no Norte de Minas Gerais, tradição e inovação não seguem caminhos opostos. Elas trabalham lado a lado.

Análises de solo, drones, sistemas modernos de irrigação e equipamentos que proporcionam maior controle da produção convivem com práticas tradicionais que ajudaram a construir a identidade da cachaça salinense.

É justamente esse equilíbrio entre preservar as raízes e incorporar novas soluções que ajuda a explicar por que Salinas se tornou uma das maiores referências da cachaça brasileira.

Salinas: uma história construída em torno da cachaça

A relação de Salinas com a cachaça ganhou força ao longo do século XX, quando uma produção inicialmente ligada às propriedades rurais começou a conquistar reconhecimento muito além das fronteiras do Norte de Minas.

Entre os nomes que marcaram essa trajetória está Anísio Santiago, criador da Havana, cuja produção contribuiu para consolidar a reputação das cachaças feitas na região.

Décadas depois, outro personagem passaria a ocupar um lugar importante nessa história.

Em 1979, Antônio Rodrigues, conhecido como Toni e posteriormente consagrado como o “Rei da Cachaça”, fundou a Cachaça Seleta em Salinas.

Nos primeiros anos, a produção era comercializada principalmente a granel. Com o passar do tempo, Toni começou a engarrafar a bebida, profissionalizou a produção e ampliou sua distribuição, levando a Seleta e o nome de Salinas para diferentes regiões do Brasil.

O crescimento da atividade também ajudou a transformar a economia local. A produção de cachaça passou a movimentar uma cadeia que envolve trabalhadores rurais, produtores, fornecedores, comerciantes, distribuidores, bares, restaurantes e o turismo.

O reconhecimento também se tornou oficial.

Em 2018, por meio da Lei Federal nº 13.773, Salinas recebeu o título de Capital Nacional da Cachaça.

Antes disso, em 2012, a região já havia conquistado o registro de Indicação Geográfica (IG) concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), reconhecendo a relação entre o território, o conhecimento dos produtores e as características da cachaça produzida na região.

Afinal, o que torna a cachaça de Salinas tão especial?

Não existe uma única resposta.

O segredo está justamente na combinação de diferentes fatores.

O clima característico do Norte de Minas, as condições do solo, as variedades de cana-de-açúcar cultivadas, os métodos de fermentação, a destilação em alambiques, o uso das madeiras e, principalmente, o conhecimento acumulado pelos produtores ao longo de décadas ajudam a formar a identidade da bebida.

Entre as práticas preservadas está a fermentação natural, uma etapa fundamental para o desenvolvimento das características da cachaça.

Na Seleta, por exemplo, o processo tradicional utiliza caldo de cana, quirera de arroz e quirera de milho, sem a adição de fermentos químicos. As leveduras atuam sobre os açúcares presentes no caldo da cana, transformando-os em álcool e dando origem ao chamado vinho de cana, que posteriormente seguirá para a destilação.

É justamente nessa etapa que tradição e tecnologia começam a mostrar como podem caminhar juntas.

Enquanto a receita e os conhecimentos tradicionais são preservados, equipamentos e controles modernos ajudam a acompanhar o processo de maneira mais precisa e regular.

As madeiras também fazem parte desse segredo

Se existe um elemento capaz de representar visualmente a tradição da cachaça de Salinas, ele certamente está nas adegas e nos barris.

As madeiras exercem influência direta sobre as características sensoriais da bebida e sempre tiveram papel de destaque na história da Seleta.

Na Fazenda Engenho dos Rodrigues, diferentes espécies são utilizadas de acordo com o perfil desejado para cada cachaça, entre elas umburana, bálsamo, jequitibá e carvalho.

Ao permanecer em contato com a madeira, a bebida passa por transformações que interferem no aroma, no sabor, na coloração e na sensação percebida no paladar.

Cada espécie pode imprimir características próprias.

A umburana, por exemplo, tornou-se uma das madeiras mais representativas da produção salinense e está diretamente relacionada à personalidade de uma das cachaças mais conhecidas da Seleta: a Seleta Ouro.

Por isso, falar de madeira na cachaça vai muito além do recipiente onde ela permanece armazenada.

A escolha da espécie e o tempo de contato ajudam a construir a identidade da bebida, permitindo desenvolver cachaças com perfis sensoriais distintos.

A tecnologia começa antes mesmo do plantio

Se parte do segredo está na tradição, outra parte está na capacidade de evoluir.

Na Cachaça Seleta, a tecnologia entra no processo antes mesmo de a cana chegar ao campo.

Antes do plantio, o solo passa por análises laboratoriais, que permitem identificar suas características e necessidades. A partir desses resultados, é possível orientar de maneira mais precisa o preparo e o manejo da área.

Na lavoura, novas ferramentas também passaram a auxiliar os produtores.

Drones são utilizados na aplicação de defensivos agrícolas, de acordo com as necessidades identificadas em diferentes áreas da plantação, tornando o manejo mais direcionado.

A irrigação também incorporou novos recursos. Sistemas de pivô podem ser acompanhados e acionados remotamente, inclusive pelo celular, permitindo controlar com maior precisão quais áreas precisam receber água.

Para Gilberto Luiz, CEO da Cachaça Seleta, a tecnologia tornou-se uma importante aliada desde as primeiras etapas da produção:

“Antes de receber as mudas de cana, o solo passa por análises laboratoriais que identificam suas necessidades e orientam os cuidados para melhorar as condições de cultivo. Na lavoura, drones são utilizados na aplicação de defensivos agrícolas, de acordo com as áreas que apresentam necessidade. A tecnologia também está presente na irrigação, os pivôs podem ser acionados até pelo celular, permitindo controlar com precisão quais regiões da plantação precisam receber água.”

O cuidado continua no momento da colheita.

A organização do corte busca reduzir o intervalo entre a retirada da cana do campo e a moagem, ajudando a preservar as características da matéria-prima utilizada na produção.

Do canavial ao alambique

Depois da colheita, a cana segue para a moagem, quando o caldo é extraído e separado do bagaço.

A qualidade da matéria-prima e o tempo entre o corte e essa etapa são importantes, pois as condições da cana podem interferir diretamente no resultado das fases seguintes.

Depois da extração, o caldo segue para a fermentação.

É nesse momento que as leveduras transformam os açúcares da cana em álcool, produzindo o chamado vinho de cana.

Concluída a fermentação, chega uma das etapas mais simbólicas da produção da cachaça de alambique: a destilação em cobre.

Durante esse processo, diferentes frações do destilado são separadas. Equipamentos adequados, controle das condições da destilação, acompanhamento técnico e a experiência de quem conduz o alambique são fundamentais para a qualidade do resultado.

Mais uma vez, tradição e tecnologia aparecem lado a lado.

O cobre continua fazendo parte da produção.

O conhecimento humano continua sendo indispensável.

Ao mesmo tempo, instrumentos de medição, equipamentos mais eficientes e controles cada vez mais precisos ajudam a trazer maior regularidade e segurança ao processo.

Tradição não significa fazer tudo como antigamente

Quando se fala em cachaça de alambique, é comum imaginar que preservar a tradição significa produzir exatamente da mesma forma que décadas atrás.

Mas tradição não significa permanecer parado no tempo.

Preservar uma cultura significa manter aquilo que dá identidade ao produto, ao mesmo tempo em que novas soluções podem ser incorporadas para melhorar sua qualidade.

No campo, análises laboratoriais ajudam a orientar o manejo.

Na irrigação, a automação contribui para um uso mais controlado da água.

Na lavoura, drones permitem intervenções mais direcionadas.

Durante a fabricação, equipamentos e instrumentos auxiliam no acompanhamento dos processos.

A tradição permanece na experiência acumulada, nas escolhas dos produtores, na fermentação, nos alambiques, nas madeiras e na relação construída entre famílias e produção ao longo das gerações.

A tecnologia não chega para substituir esse conhecimento.

Ela chega para complementá-lo.

Sustentabilidade também faz parte da evolução

A modernização da produção não está relacionada apenas à eficiência ou ao controle de qualidade.

Ela também passa por uma preocupação crescente com o aproveitamento dos recursos.

Depois da moagem da cana, por exemplo, sobra o bagaço.

Em vez de ser visto apenas como resíduo, esse material pode ser reaproveitado dentro das próprias propriedades, inclusive em processos de compostagem e adubação.

Essa lógica permite integrar diferentes etapas da produção e reduzir desperdícios.

O cuidado com os recursos naturais amplia ainda mais essa perspectiva.

Quando planejamento ambiental, tecnologia e tradição caminham juntos, a produção deixa de olhar somente para a próxima safra e passa também a considerar a continuidade da atividade para as gerações seguintes.

E talvez esse também seja um dos segredos de uma tradição duradoura: saber preservar aquilo que veio do passado enquanto se prepara o terreno para o futuro.

De Salinas para o Brasil e para o mundo

A história construída em Salinas faz parte de um setor que alcançou dimensões expressivas no Brasil.

De acordo com o Anuário da Cachaça 2026, elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária com dados referentes a 2025, o Brasil registrava 1.538 estabelecimentos produtores de cachaça, distribuídos por 844 municípios.

Minas Gerais aparecia na liderança, com 564 estabelecimentos produtores.

O levantamento também contabilizou 8.379 cachaças registradas no país, sendo 2.922 em Minas Gerais.

Somente em 2025, a produção declarada de cachaça no Brasil chegou a aproximadamente 234,4 milhões de litros.

A bebida brasileira também continua atravessando fronteiras.

No mesmo período, o país exportou cerca de 7,95 milhões de litros de cachaça para 76 destinos, movimentando aproximadamente US$ 17 milhões.

São números que demonstram a dimensão alcançada por uma bebida que continua profundamente ligada aos canaviais, aos alambiques e às histórias das famílias produtoras brasileiras.

Seleta: uma tradição que continua evoluindo

Desde que Antônio Rodrigues iniciou sua trajetória em 1979, muita coisa mudou.

A produção cresceu, novos equipamentos chegaram, os controles se tornaram mais precisos e a tecnologia passou a fazer parte de diferentes etapas, do preparo do solo à fabricação da bebida.

A Seleta conquistou consumidores em todo o Brasil e ajudou a levar o nome de Salinas para além das fronteiras do Norte de Minas.

Mas, mesmo diante de tantas transformações, princípios importantes continuam presentes.

A valorização da matéria-prima, o conhecimento transmitido ao longo das gerações, a fermentação tradicional, a destilação em alambiques e a escolha das madeiras permanecem como elementos fundamentais dessa história.

E é justamente aí que está o segredo da cachaça de Salinas.

Não se trata de escolher entre tradição e tecnologia. Trata-se de saber unir as duas.

Do solo analisado em laboratório ao canavial. Do canavial à moagem. Da fermentação ao cobre do alambique. Do alambique às madeiras. Das madeiras à garrafa.

A tecnologia ajuda a aperfeiçoar o processo.

A tradição preserva sua identidade.

E, em Salinas, as duas continuam lado a lado, escrevendo os próximos capítulos da história da cachaça brasileira.

Fonte de referência: reportagem “Do canavial ao alambique: capital da cachaça, Salinas moderniza produção sem abandonar tradição”, de Gabriela Neves e Beatriz Pena, publicada pela Itatiaia. Dados estatísticos mencionados conforme o Anuário da Cachaça 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária.

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